Surfar ou não durante a quarentena

Mar e praia vazia do arquivo pessoal da autora. Foto Janaína Pedroso.

As redes sociais foram invadidas por correntes de pensamentos lançados por surfistas amadores e profissionais, em relação à questão: surfar ou não durante a quarentena?

Miguel Pupo, atleta de Maresias e integrante da elite do surfe mundial por anos, foi um que levantou a questão.

Publicidade

Através de um vídeo, Pupo argumenta sobre a postura de alguns surfistas que têm desobedecido às ordens e conselhos de órgãos mundiais da saúde e autoridades locais. A manifestação rendeu uma avalanche de comentários.

O cantor e também surfista Gabriel O Pensador fez uma espécie de alerta ao atleta. “Também tô com saudade de surfar e fiz até um post hoje sobre isso, mas nós, formadores de opinião, não devemos incentivar ninguém a circular desnecessariamente, e esse seu post de dúvida acaba dando uma pilhada em muita gente que lê e não tem o entendimento correto de que um erro não justifica o outro. (…)”, escreveu O Pensador.

Realmente, em tempos de redes sociais e educação rasa, a falta de entendimento e falsas interpretações de texto são comuns atualmente.

Na minha visão, Miguel ao questionar “se ele pode por que eu não posso?”, quis demonstrar como os que não cooperam acabam afetando àqueles que estão se privando de fazer o que mais amam em nome do bem comum.

Mas, de fato, conforme o cantor alertou, o tiro, nesse caso, pode ter saído pela culatra, e o que seria um alerta, transformou-se em incentivo para “furar” a quarentena.

Mais vídeo

Outro surfista que se manifestou essa semana foi o longboarder Carlos Bahia, também de Maresias. Em vídeo, dessa vez com tom mais claro em relação ao que acredita, Bahia mostra frequentadores da badalada praia do litoral norte indo surfar.

Vale mencionar, que no início da crise gerada pela disseminação da doença, acreditava-se que o surfe estaria liberado. Afinal, como esporte individual e praticado ao ar livre, o risco de contaminação é considerado praticamente inexistente.

Porém, as notícias e recomendações mudam, e como a maré que nós surfistas estamos acostumados a monitorar, conselhos e ordens superiores também são voláteis. E, portanto, as adequações de nós surfistas a elas também. Ou seja, o que ontem era “tudo bem”, hoje já não é mais.

Em Ubatuba

A cidade de Ubatuba tem grande parte da receita vinda do Turismo, um dos setores mais  prejudicados pela pandemia da Covid-19, inicialmente. Contudo, desde o começo da crise as autoridades locais parecem ter adotado medidas, inclusive via decretos, que visavam conter a entrada de turistas na cidade, obrigando o fechamento de pousadas e hotéis.

Sabe-se que além de belas praias e paisagens naturais abundantes, a cidade de Ubatuba tem também problemas de sobra. Se por um lado a Natureza é vasta, de outro a escassez na saúde e saneamento básico são questões que, até hoje, não parecem ter sido prioridade das sucessivas administrações públicas.

Justamente diante do conhecimento de um sistema de saúde precário e da ineficácia operacional em outros setores, a prefeitura do município se organiza agora para minimizar possíveis desastres no sistema de saúde de Ubatuba.

Um hospital de campanha já está em curso, e novos decretos são divulgados quase que semanalmente por meio de lives no Facebook.

Mas, mesmo diante de números e caixões estendidos, vistos em imagens divulgadas na Europa,  alguns moradores da cidade foram às ruas na semana passada, para engrossar o coro das carreatas pelo fim da quarentena em nome da retomada da Economia.

Surfistas de final de semana, proprietários de casas de veraneio e até atletas profissionais também não têm contribuído para conter o avanço do desastre da saúde em Ubatuba.

O desrespeito de alguns têm gerado conflito e indignação dos que estão preocupados e conscientes.

Um morador do condomínio de Itamambuca, que prefere não se identificar, relatou como se sente. “Eles acham que é brincadeira? Estão de férias? Nós também amamos surfar e sofremos com a proibição, mas nem por isso estamos na praia. É um desrespeito e uma falta de senso comunitário que chega a chocar”, diz o morador.

Associação Ubatuba de Surf faz o que pode

Outra entidade que tem arregaçado as mangas para contribuir e conscientizar sobre a importância de não surfar neste momento é a AUS.

Tida como uma das melhores e mais organizadas associações de surfe do país, a entidade tem feito vídeos e posts nas redes sociais sobre o tema.  Assista ao recado no presidente da associação aqui.

Por fim, a pergunta que fica é: até quando as pessoas vão duvidar da gravidade do problema e colocar em risco a vida de outras em nome de seu egoísmo e satisfação pessoal?

Então, por ora seguimos assim, surfando com a mente!

por Janaína Pedroso/ origemsurf.com.br