Bate papo com Lucas Silveira

Lucas Silveira foi campeão Mundial Pro Junior no ano de 2016 – Antonio Valverde (Badfilmer)

Surfista Lucas Silveira relembra conquista do Mundial Pro Junior e projeta futuro da carreira

Atleta ainda falou sobre a rivalidade entre os brasileiros e os estrangeiros no cenário do surfe

O mundo do surfe foi completamente modificado nos últimos anos a partir da chegada de jovens atletas brasileiros, que não se intimidaram e passaram a dominar as etapas e brigar por todos os títulos disputados nas categorias.

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Além destes jovens, o Brasil também contou com o auxílio do surfista Adriano de Souza, que entrou no WCT há mais tempo e abriu espaço para os demais atletas. O domínio brasileiro é tão grande que grandes nomes do surfe mundial perderam protagonismo neste cenário tão fascinante.

E se engana quem pensa que este domínio se restringe apenas na elite do surfe. O Brasil já vem sendo protagonista nas competições juniores há algum tempo e a projeção é ainda mais animadora com a chegada de novos nomes para o Circuito Mundial.

Um destes exemplos vitoriosos é o surfista Lucas Silveira, de apenas 24 anos. O atleta conquistou o título Mundial Pro Junior no ano de 2016 e entrou para a lista de brasileiros vencedores no mundo do surfe.

Por toda esta importância no cenário do surfe brasileiro, Lucas Silveira bateu um papo com a reportagem do SportBuzz, por telefone, e falou sobre sua carreira, relembrou a conquista do Mundial e ainda projetou a retomada das competições após a pandemia de coronavírus. Confira!

Após a conquista de um título mundial na categoria Junior, a expectativa sobre o futuro do atleta tende a crescer ainda mais. Porém, Lucas Silveira afirmou não ter sentido este tipo de pressão, a não ser exercida por ele próprio sobre o objetivo de entrar para o WCT.

“Com certeza a maior pressão foi minha em cima da minha expectativa. Este título Junior ele mudou a categoria depois que eu ganhei, foi para sub-18. Quando eu ganhei era sub-20. Depois disso, o próximo passo é classificar para o CT. Então, eu coloquei bastante expectativa em mim mesmo. Eu já estava correndo o QS antes de ganhar o Pro Junior e o objetivo sempre foi entrar para o CT”, analisou Lucas.

Lucas Silveira foi campeão Mundial Pro Junior no ano de 2016 (Crédito: Antonio Valverde [Badfilmer])

Além desta pressão, o surfista comentou a maneira como os atletas têm entrado no Circuito Mundial. Segundo ele, a entrada no CT é feita cada vez mais jovem, mas este pensamento não seria o ideal, já que temos exemplos de carreiras que se iniciaram mais tarde e tiveram sucesso.

“No Brasil e nas últimas gerações que entraram no WCT, cada vez mais os atletas se classificam mais novos. Isso mudou a expectativa de geral. Filipinho chegou com 17 anos. Então ter 19 e não estar no CT ainda é como se estivesse atrasado. Acaba que não é muito legal pensar assim, porque temos vários caras que fizeram a carreira bem depois. Por exemplo, o William (Panda) entrou com 30 anos e ganhou etapa do CT e teve sucesso ali também”, refletiu.

Questionado sobre como os títulos mundiais de Gabriel Medina, em 2014, e Adriano de Souza, em 2016, puderam influenciar sua vitória no Mundial Pro Junior, Lucas Silveira relembrou o convívio com o treinador Leandro Grilo durante a etapa decisiva da competição.

“O ano que eu ganhei foi o mesmo que o Adriano de Souza foi campeão mundial do CT. Ele estava treinando com o Grilo na campanha do título dele. E lá em Portugal eu estava com o Grilo me acompanhado também. Então foi esse momento do Grilo ter sido campeão com ele (Adriano) e já ir passando esta confiança. Influencia bastante”, completou.

Entrando no tema da etapa decisiva em Ericeira, em Portugal, Lucas relembrou a enorme demora para que a competição tivesse início por conta do “auge do inverno e uma tempestade de dez dias”. Por estar tão perto do título, o surfista contou como é manter a concentração mesmo com a grande espera pela realização do torneio.

“É bem difícil achar uma fórmula. Se tiver uma eu quero saber também (risos). Para cada campeonato sua cabeça está diferente, não dá para repetir um ano depois o que eu fiz em Portugal, porque minha cabeça está totalmente diferente do que naquele momento, mas naquela ocasião as coisas fluíram bastante”, disse.

Lucas segue no aguardo da retomada do surfe mundial (Crédito: Antonio Valverde [Badfilmer])

 

LESÃO NA TÍBIA

Lucas Silveira vinha vivendo bom momento na carreira até que sofresse grave lesão na tíbia no final do ano passado. O acidente aconteceu em Mundaka, País Basco, e a expectativa era de que o atleta voltasse após quatro meses de recuperação. Porém, a situação foi diferente.

“Fiz um retorno um pouco precoce. A média para voltar a fazer as coisas depois da minha lesão é de quatro meses e eu voltei a ficar de pé na prancha com três meses. Com três meses e meio já fui para o Marrocos, na primeira etapa do ano. Estava bem mal e com menos de 50% recuperado, mas era um lugar bom para colocar o surfe no pé de novo. Fui mais para fazer uma surfe trip e aproveitei para competir também”, falou Lucas.

“A volta ao surfe foi bem lenta para voltar a confiança. Eu estava começando a me sentir confiante na semana que tudo foi cancelado. Estava começando a arriscar manobras mais ousadas e surfar sem dor, mas antes estava com dor e me incomodando um pouco. O surfe fazia parte da fisioterapia e quando estava ficando mais animado tudo parou”, detalhou.

Por conta do domínio brasileiro no CT é normal que haja uma certa rivalidade entre os demais surfistas que sempre tiveram controle no cenário do surfe mundial. Questionado sobre a situação, Lucas afirmou que existe uma separação e que ainda existe muita gente que não aceitou este domínio.

“Eu acho que rola um pouco uma separação dos brasileiros com o resto da galera. Até pela língua, os americanos, os havaianos falam a mesma língua. E o brasileiro é muito diferente por natureza. Rola uma separação e muita gente ainda sente dificuldade em aceitar este domínio brasileiro”, revelou.

“Medina, Filipinho, Ítalo nunca ligaram se era o Kelly Slater, tratavam o Kelly como qualquer pessoa na bateria. Não estavam nem aí, começava na prioridade, se remasse na frente atropelava e foi mais ou menos isso. Agora não é mais uma surpresa um brasileiro ganhar uma etapa do WCT”, completou Lucas.

Confira outros trechos da entrevista com o surfista Lucas Silveira:

SONHO DA CARREIRA

– Competitivamente é entrar para o WCT. Gostei destas mudanças no formato da WSL, acho que vai ficar mais sério, vamos poder nos preparar melhor para a temporada. Vai ser positivo, pode ser que fique mais rendável, para a WSL vai ser melhor. Meu próximo objetivo na carreira é classificar para o CT, é ali que você consegue construir uma carreira mesmo.

PROJEÇÃO PARA O FUTURO

– Estamos em Standby ainda. O calendário do CT já foi divulgado, mas o do QS ainda não. Sabemos que vai começar ano que vem, mas por enquanto estou focado nesta nova série, no Hammer Tales. Vamos tentar lançar um episódio todo domingo.

CANAL NO YOUTUBE – HAMMER TALES

– O Antônio Valverde está produzindo a série e ele que veio com a ideia. A viagem que eu me machuquei na Europa ele estava comigo e a gente manteve contato. Fizemos alguns projetos juntos e ele veio com a ideia de fazer o canal. Ele estava na pilha e fiquei pilhado também. 

– É uma boa oportunidade de mostrar coisas que o público em geral não costuma ver. O que a galera faz entre os surfes, como é o dia a dia de um surfista. Eu costumava fazer vídeo clipes com o surfe e com o rock roll e era isso. Tem muita gente que gosta, mas tiveram pessoas que vieram reclamar ‘coloca só surfe’ (risos).

– Muita gente que não está acostumada com surfe pode não entender o nome. Lá fora, eles usam bastante estas gírias. O Hammer é aquela martelada na onda. O nome Hammer Tales é a história de uma Hammer, um cara que manda bem na onda, que quebrou, foi forte.

Lucas Silveira tem apenas 24 anos (Crédito: Antonio Valverde [Badfilmer])

 

SENSAÇÃO DE SURFAR EM PIPE E TEAHUPO’O

– Tem uns lugares que têm este lado místico mesmo. Alguns locais têm uma vibe por trás da onda. A onda em si já é muito intimidadora, Pipe, Chopo em cima da bancada pode te quebrar, matar, enfim. Ela impõe respeito, tem vários lugares que te deixam mais humilde e é bem interessante essa relação. O medo nunca é bom, mas o respeito que estas ondas fazem você ter é bem legal de desenvolver. A gente é muito insignificante perto da natureza.

INSPIRAÇÕES NA CARREIRA

– Tem muita gente que dá para se inspirar. Eu gosto muito de me inspirar em quem eu sou mais próximo. Um surfe que eu gosto muito de assistir e surfar junto é o Yago Dora. Ele é muito talentoso, é impressionante ver as manobras que ele manda com muita frequência. No surfe competição, eu gosto bastante do Mick Fanning.

ETAPA MAIS ESPECIAL

– Uma bem legal foi uma etapa do CT que eu consegui correr como convidado em Grumari. A primeira fase era eu e o Mineiro na bateria. Ele tinha acabado de ser campeão mundial. E faltava menos de dois minutos, consegui fazer uma nota hard score e virei a bateria. Foi bem emocionante por ser alto nível. Foi a bateria que mais deu repercussão.


 

GUILHERME ASSUMPÇÃO/ sportbuzz.com.br

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